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'A coisa é muito feia', diz ex-goleiro, sobre centros de treinamento da base

'A coisa é muito feia', diz ex-goleiro, sobre centros de treinamento da base
Os desafios no combate a violações de direitos da criança e do adolescente nas categorias de base dos clubes de futebol e os riscos da formação esportiva precoce foram debatidos, nesta segunda-feira (15), em seminário no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1). O incêndio que matou dez jovens no centro de treinamento do Flamengo, em 8 de fevereiro, chamou a atenção da mídia para o papel da sociedade sobre o tema.

O ex-goleiro do Flamengo e comentarista esportivo Getúlio Vargas contou sua experiência nas divisões de base e a falta de estrutura dos clubes do Brasil. Após a tragédia centro do treinamento do Flamengo, o ex-atleta compartilhou relatos de familiares e amigos de jovens em situação de risco em clubes esportivos no Brasil.

“Em três horas, eu tinha mais de 80 fotos. Os pais e familiares confiaram em mim. Recebi um depoimento de uma mãe desesperada que não tinha notícias do filho havia seis meses. A coisa é muito feia. A imprensa acordou, e os órgãos começaram a atuar. Logo em seguida, o Ministério Público do Ceará fechou duas categorias de base no estado”, relatou Vargas.

O comentarista esportivo destacou que as violações aos direitos dos jovens acontecem em clubes de futebol de todo o Brasil. Ele contou que recebeu relatos de situações de instalações elétricas precárias e defendeu medidas drásticas para evitar novos acidentes.

“Se fizerem um pente-fino, vamos ter de fechar todos os centros de treinamento no país. E acho que tem que fechar mesmo. Não podemos expor nossas crianças ao que são expostas”, afirmou Getúlio Vargas.



A coordenadora do Acordo de Cooperação para Combate do Trabalho Infantil e representante da AMATRA1, Gloria Mello, destacou a importância da discussão sobre o tema. Ela lembrou que o exemplo de atletas famosos e bem-sucedidos dificulta as denúncias de violações aos direitos dos jovens.  

“São múltiplas e complexas as causas de violações nas categorias de base do futebol, tornadas invisíveis pelo glamour das conquistas de uns poucos atletas pelo justo e lícito sonho de muitos jovens de igualar os feitos”, disse Gloria.

O presidente do TRT-1, desembargador José da Fonseca Martins Junior, realçou que o incêndio do centro de treinamento do Flamengo trouxe o tema ao centro do debate público. “As condições em que os clubes colocam esse jovens e menores precisam ser avaliadas. Essa (tragédia) foi apenas a ponta de um iceberg.”

A coordenadora do Seminário, Ana Christina Brito Lopes, pesquisadora e consultora em Direito da Criança e do Adolescente, explicou que as entidades não são contrárias à formação esportiva de crianças e adolescentes. “Ao contrário, queremos discutir a universalização do esporte. O esporte traz benefícios para saúde e desenvolvimento físico. O problema é quando isso se torna uma especialização, com treinos mais específicos e intensificados.”

[caption id="attachment_24687" align="aligncenter" width="800"] Procurador de Justiça Murillo José Digiácomo[/caption]

O professor de Educação Física e técnico em desporto escolar Fernando Barreto Barbosa afirmou que o esporte na infância e juventude deve auxiliar no processo de desenvolvimento acadêmico do aluno. “A atividade física é salutar. Mas quando falamos em alto rendimento não é saudável. Há uma exposição grande ao estresse e lesões. As crianças são estimuladas a omitir lesões para não perder a vaga na equipe e não perder dinheiro. Os pais acham que seus filhos serão a tábua de salvação da família.”

O procurador de Justiça do Ministério Público do Paraná Murillo José Digiácomo falou sobre as dificuldades no combate às violações de direitos. Ele disse que a tragédia no Flamengo deve servir para uma união das entidades no combate ao desrespeito. “O caminho é difícil. Precisamos nos unir para chegarmos longe. Temos que dar um basta a violações de direitos e abusos. Nossos jovens atletas esperam isso de nós.”
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