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Crise da Covid-19 impacta a saúde mental de trabalhadores, diz psicólogo

Crise da Covid-19 impacta a saúde mental de trabalhadores, diz psicólogo
Ansiedade, depressão, insônia, tristeza e angústia são alguns sintomas que se tornaram mais presentes no dia a dia de milhares de trabalhadores, em decorrência da pandemia da Covid-19. Desde março de 2020, o mundo do trabalho tem sofrido transformações que impactam diretamente a saúde mental dos empregados, lançando um alerta sobre o tema no ambiente laboral.

Segundo a pesquisa “ProjeThos Covid-19 – Escuta do Trabalho, Humanização e Olhares sobre a Saúde no contexto da pandemia do novo coronavírus”, as pessoas estão dedicando mais horas ao trabalho, dormindo menos ou igual, comendo mais e se sentindo mais cansadas, além de estarem mais preocupadas e inseguras. Elaborado pelos pesquisadores doutores Carmem Regina Giongo (Feevale/UFRGS), Karine Vanessa Perez (UQAM/UNISC) e Bruno Chapadeiro (UNIFESP), do campo da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, o estudo foi iniciado em abril do ano passado e segue em andamento, ouvindo profissionais do Brasil e do exterior em atuação tanto em atividades presenciais ou em regime de home office

Na magistratura, as consequências da crise sanitária têm sido as mesmas. A análise “Saúde Mental de magistrados e servidores no contexto da pandemia da COVID-19”, feita pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com 46.788 magistrados e servidores, mostrou que 48% dos participantes afirmaram estar mais cansados do que no período anterior à quarentena, 42% tiveram piora no humor e 48% sofreram alterações no sono. Além disso, também disseram sentir mais medo, desânimo, melancolia, raiva, irritação e pensamentos negativos.

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Para Túlio Fonseca Coimbra, psicólogo na Coordenadoria de Saúde do TRT-1, as mudanças de hábitos promovidas pela pandemia, como maior tempo dentro de casa, temor coletivo pela possível contaminação e sobrecarga de trabalho, provocaram impactos negativos na saúde mental dos trabalhadores. 

“Além do aumento de casos de ansiedade e depressão, houve uma piora regular de sintomas que a pessoa já tendia a apresentar. Se já havia tendência a ter sintomas de fobias, por exemplo, essa situação tende a se agravar na pandemia. O transtorno geral acarretado pela crise que temos acompanhado impacta diretamente a saúde mental. É como se a pandemia ‘cutucasse a ferida’ de cada um, abrindo questões na vulnerabilidade que já temos”, disse Coimbra, que é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com concentração em Estudos Psicanalíticos.

No período da crise sanitária, o Brasil é o país com maior índice de ansiedade, de acordo com um levantamento da Ipsos envolvendo 16 países. Na mesma linha, os resultados presentes no artigo “Depressão e Ansiedade entre trabalhadores essenciais do Brasil e da Espanha durante a Pandemia de Covid-19: uma pesquisa pela web”, com pesquisadores da Fiocruz, mostraram que 47,3% dos trabalhadores dos dois países apresentam sintomas de ansiedade e depressão, e mais da metade deles sofre das duas condições ao mesmo tempo.

Coimbra explica que a atividade profissional tem sido afetada pela ansiedade - uma condição natural do corpo humano, mas que é agravada em momentos de incertezas como as enfrentadas neste período de pandemia. Por isso, ele alerta ser necessário diminuir as expectativas quanto à produtividade e também que empregadores e empregados amenizem as cobranças com o próximo e consigo mesmos.

“O mundo mudou muito diante da crise. Então, é preciso haver um pouco mais de flexibilidade para compreender a situação e perceber que muitas pessoas não vão realizar o trabalho da mesma forma que antes. Se por um lado nos sentimos mais ansiosos e temerosos pelo ‘mundo exterior’, muitas pessoas se cobram mais pelo fato de estarem em casa. Exigem ainda mais, tornam-se mais perfeccionistas. Essa auto exigência, muitas vezes, gera efeito contrário e a pessoa não consegue produzir nada. Deve-se diminuir as expectativas e focar em fazer um dia de cada vez”, aconselha o psicólogo.

Como amenizar os efeitos da pandemia na saúde mental?

Uma reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que empresas como a Johnson&Johnson Brasil, a Votorantim Energia e a Vale têm se preocupado mais com a saúde mental de seus trabalhadores. Ao longo dos meses em que as transformações no ambiente laboral foram sendo percebidas, as companhias passaram a investir em medidas para auxiliar os empregados, como planos de bem-estar psicológico.

Segundo Coimbra, além da oferta de tratamento psicológico com profissionais qualificados, é fundamental que as instituições cumpram um “papel pedagógico” no que diz respeito à saúde mental, conscientizando sobre os cuidados necessários. “Deve-se haver orientação sobre quais profissionais procurar e auxílio para que todos saibam quem, como e onde procurar ajuda profissional. Muitas pessoas ficam perdidas, sem saber como agir quando percebem os sintomas”, completa.

Ele destaca, também, que as empresas podem incentivar o acesso à cultura - já que o engajamento com obras literárias e cinematográficas, por exemplo, pode gerar a desconexão com problemas e preocupações - e a prática de atividades físicas regulares, mesmo que em casa e em curta duração. 

“O exercício físico impacta positivamente a saúde mental, principalmente no combate aos sintomas de tristeza e ansiedade. Então, dentro dos limites possíveis para cada pessoa, é muito importante se exercitar”, afirmou Coimbra.

*Foto: Freepik
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