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Em artigo, juíza lembra permanência das desigualdades de gênero

Em artigo, juíza lembra permanência das desigualdades de gênero
Em artigo publicado no site Justiça & Cidadania, a juíza do Trabalho do TRT-5 Viviane Christine Martins Ferreira, integrante da Comissão de Direitos Humanos da Anamatra, mostra que a celebração do Dia Internacional da Mulher não pode esquecer daquelas que vivem e trabalham hoje como se ainda estivéssemos no passado. O trabalho análogo à escravidão, o feminicídio, o trabalho infantil, o abuso sexual, o racismo, a disparidade entre salários de homens e mulheres trazem o passado para o presente e “não permitem mudar o tempo do verbo”. Para a juíza, “é urgente revisitar o passado que não passa e identificar ambiguidades e permanências”, ressaltando que “quase um terço da população brasileira, composta por mulheres negras, esteja em larga escala em desemprego, subemprego, informalidade e trabalho precário”.

Leia abaixo a íntegra do artigo:

Oito de março, passado e persistências

Viviane Christine Martins Ferreira - juíza do Trabalho substituta do TRT-5

Todos os anos, desde o começo do Século XX, quando a data foi celebrada pela primeira vez nos Estados Unidos, a partir de movimentos de mulheres expostas a jornadas excessivas, salários medíocres, condições de trabalho aviltantes e ao testemunho da supressão de vidas exploradas em trabalho infantil, somos convocadas a demarcar a importância histórica do Dia Internacional da Mulher.

Porém, qual vivêssemos em passado que não se supera, apesar das conquistas que permitem projetar possibilidades e prospectar futuros, o resgate da senhora negra cuja vida foi dedicada ao serviço doméstico, sem receber pagamento, faz do passado, presença. O feminicídio confessado, praticado enquanto a vítima, grávida, dormia aninhada ao seu algoz, também traz o passado para o presente. As meninas, negras em sua maioria, nas casas em trabalho infantil, ou silenciadas por abusos sexuais, invisibilizadas pela incapacidade de enxergar que o racismo provoca, nos impedem de escrever no passado. A divisão desigual do trabalho de cuidado, e também a carga mental, a adoecer mulheres, trabalhadoras e mães, a fragilidade dos vínculos para aquelas dispensadas nos primeiros anos de vida dos filhos, a disparidade entre salários para exercício das mesmas funções masculinas, as violências e assédios, não permitem mudar o tempo do verbo. O silenciamento da fala daquela representante de cargo político, durante o seu discurso, ou a escassez em presença nos lugares de maior hierarquia nos espaços institucionais de poder lembram da atualidade do passado. A fortuna de um punhado de homens brancos a superar toda a renda das mulheres negras no Brasil fazem do ontem contemporâneo. O abuso no cotidiano, a insegurança como amiga, o medo como companhia nos devolvem ao mesmo lugar, todos os anos.

Neste ano, número três da pandemia, é urgente revisitar o passado que não passa e identificar ambiguidades e permanências, nomear racismo, sexismo e desigualdade no Brasil, qual escreveu Sueli (Carneiro), provocando considerar inadmissível que quase um terço da população brasileira, composta por mulheres negras, esteja em larga escala em desemprego, subemprego, informalidade e trabalho precário, mas sejam minoria entre aquelas que experimentam os avanços derivados da ampliação de participação feminina nas atividades antes legadas exclusivamente a gênero distinto, ou que chamem de identitarismo a reivindicação de igualdade prometida pela Constituição Federal.

Convocadas a destacar o 8 de março e entendendo que passou da hora de reconhecer privilégios, materiais e simbólicos, que posicionam em lugares distintos as mulheres, assim entendidas nas diversidades possíveis em sentido de inclusão, é chegado o momento de ceder e compartilhar espaços, perceber as distinções de opressão que tornam mais difíceis as caminhadas, extremas as dores e diferentes as experiências, abandonar tradições artificiais denominadas neutras, mas operadas à manutenção de desigualdades e de posições de poder, para, em substituição, pensar em políticas arrebatadoras, qual alertou Bell (Hooks), porque o feminismo é para todo mundo e o empoderamento só faz sentido se coletivo e emancipatório de grupos minorizados.

Provocadas a falar em mulheres, convém perguntar de quais mulheres estamos falando e restaurar a ousadia de Lélia (Gonzalez) ao questionar ‘cumé’ que a gente fica, porque ao largo da existência das normas de proteção, a fragilidade não alcança aquelas que começam a trabalhar no breu, no campo, nas cidades ou nas casas, com ou sem remuneração, que utilizam transportes públicos lotados, que são privadas de dignidade e exercício de direitos, que perdem seus filhos entre a infância e a juventude sob distintas formas de violência, das quais também são as maiores vítimas, das sutis às que fazem cessar a respiração e interromper a vida.

Se todos os anos, desde o limiar do Século passado, mulheres se movimentam a falar do Dia Internacional conquistado entre as lutas históricas por igualdade de gênero e sobre o que a data representa, no ano de 2022 e porque já não temos em vida Elza (Soares), habitante do planeta fome, dona da voz do milênio e cuja passagem trilhou dos tempos em que a mulher só tinha o direito de apanhar calada àquele que chamou de fim do mundo, é na urgência que escrevo, torcendo para que todas as pessoas destinatárias das palavras reconheçam a importância da pressa para as mudanças dos tempos, dos verbos e dos conteúdos dos textos sobre o Dia Internacional da Mulher.
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