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‘Poesia e magistratura não são pólos opostos’, diz Cláudia Reina

‘Poesia e magistratura não são pólos opostos’, diz Cláudia Reina
Juíza do Trabalho há 23 anos, Cláudia Regina Reina Pinheiro também se dedica à arte de escrever. Integrante do grupo “Juízes Poetas”, a magistrada contribuiu para três livros — “Poesia”, “Tecendo a Magia” e “Pássaro Liberto” — e está prestes a lançar sua quarta obra. Para Cláudia, a escrita é um processo natural e não há grande esforço em conciliá-la à carreira profissional. “A poesia e a magistratura não são pólos tão opostos”, disse.

“A poesia está muito além das palavras que a materializam no papel. Aprender técnicas de escrita não transforma um homem em poeta. Em sentido amplo, podemos encontrar a poesia em qualquer lugar se tivermos sensibilidade para vivenciá-la: pode estar na história contada nos autos ou no olhar de um homem que procura o Poder Judiciário na tentativa de restaurar a sua dignidade; na sala de audiências e nos autos processuais.”



Ligada à literatura desde a infância, a juíza não vê a arte como válvula de escape. “As palavras surgem de experiências intensamente vivenciadas”, afirmou. Fotógrafa amadora, ela conta que sua escrita está fortemente ligada às imagens presenciadas e registradas.

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[caption id="attachment_26539" align="aligncenter" width="720"] Magistrada escreve a partir de 'experiências intensamente vivenciadas'[/caption]

“Normalmente, fotografo antes. Eddie Adams, um dos grandes mestres da fotografia, disse que ‘fotografias são as armas mais poderosas do mundo’. Elas denunciam a barbárie. Por outro lado, desvendam a beleza no meio do caos. Revelam as luzes e as sombras que envolvem a humanidade. No século da indiferença, ainda temos a arte como instrumento de resistência”, disse Cláudia.

Um de seus poemas, “Mãe África”, publicado em “Tecendo a Magia”, foi escrito durante a viagem de Cláudia à Tanzânia, país da costa oriental do continente africano, e inspirado na fotografia de uma mulher protegendo o filho no colo.

[caption id="attachment_26536" align="aligncenter" width="584"] Cláudia Reina se inspirou em fotografia de mãe protegendo o filho na África para escrever poema[/caption]

“A metáfora da Mãe África possui várias simbologias, entre elas a luta de um povo para preservar suas raízes. Na seca, no sol escaldante, rodeada de feras, com a pele impregnada de poeira, Mãe África dança para distrair a morte. Grande símbolo de luta e resistência”, explicou.

Cláudia Reina também contou que sua poesia “Pássaro Liberto” deu nome ao terceiro livro do grupo. “É uma coletânea em homenagem a Paulo Merçon, poeta, músico, fotógrafo e juiz do Trabalho, falecido em 2014. O poema é dedicado ao Paulo e ao grande dramaturgo Henrik Ibsen”, disse.

Leia o poema “Mãe África” na íntegra:

Teus olhos sorvem

o calor das savanas.

Velam, à sombra de Deuses,

os filhos abandonados 

no berçário

desta terra bruta.

Nas areias quentes

das estepes ressequidas,

danças para distrair a morte.

Tu bem sabes:

as feras estão

de guarda.

És o centro de uma

aquarela seca,

a mais antiga

das mulheres.

Tu cantas

todos os prantos

de todas as mães.

Tu carregas

todas as dores

de todos os partos.

Bendito é o teu ventre.

Leia o poema “Pássaro Liberto” na íntegra:

Livre bem livre

Sem prisão

nem teto

voo

flutuo ao vento

pássaro liberto.

Livre bem livre

Sem prisão

nem teto

corto os ares

atravesso o mundo

pássaro inquieto.

Livre bem livre

Sem prisão

Nem teto.

*Fotos: Cláudia Reina
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