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Em live, Eliana Cruz e Marton Olympio comentam racismo no filme ‘Corra!’

Em live, Eliana Cruz e Marton Olympio comentam racismo no filme ‘Corra!’
O racismo presente na sociedade, escancarado de forma inovadora no filme de suspense e terror “Corra!”, foi tema da live da AMATRA1 na sexta-feira (27). A escritora, jornalista e colunista do UOL Eliana Alves Cruz e o diretor e roteirista da TV Globo Marton Olympio conversaram sobre a trama de Jordan Peele, protagonizada pelo fotógrafo negro Chris (Daniel Kaluuya). Transmitido no YouTube e no Facebook, o debate foi mediado pelo juiz do Trabalho Fernando Resende, diretor da associação.

O roteiro vencedor do Oscar 2018 e do Critics' Choice Movie Awards apresenta o relacionamento interracial de Chris e Rose (Allison Williams). Em um fim de semana, eles viajam ao interior dos EUA para visitar a família da jovem que, inicialmente, o recebe de forma amorosa. Porém, o comportamento dos sogros brancos e dos empregados da casa - todos negros - causa estranhamento no fotógrafo. Com o passar das horas, ele descobre o assustador segredo da família.

“O filme me tocou muito nessa questão de ser um terror, mesmo que não seja um terror pesado e violento. Existe uma aura de insegurança, uma atmosferas de sobressalto de que algo pode acontecer. O telespectador é colocado na visão do protagonista e todos podem experimentar um pouco algo que infelizmente faz parte do cotidiano das pessoas de cor negra - a sensação de que algo pode acontecer fora da normalidade”, disse o magistrado Fernando Resende.

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Autor da última temporada de Cidade dos Homens (2018), Marton Olympio destacou a importância de se levar a questão racial para o cinema de terror, que é predominantemente feito por pessoas brancas.

“O filme é muito especial para mim por trabalhar o gênero como forma de manifestação do pensamento. Geralmente, o terror e outros gêneros que não passam pelo drama são sempre considerados sub gêneros do cinema e não são tão valorizados. Jordan Peele consegue trazer, de forma muito marcante e através de um filme popular, uma discussão enorme em termos de racismo, branquitude, de espaços brancos e relações entre pessoas brancas e negras”, afirmou.

Segundo a escritora Eliana, autora de romances como “Nada digo de ti, que em ti não veja” (Pallas, 2020), o filme é “ousado e desafiador por muitas questões”, mas principalmente por trazer um homem negro como protagonista. 

“É um filmaço. Especialmente para pessoas negras, ele toca em lugares muito profundos. Você se diverte e leva susto assistindo, mas percebe referências muito profundas. O Jordan acertou em cheio. Falou de vários outros assuntos, como masculinidade, que estão magistralmente distribuídos no filme. O roteiro é incrível, nada fica perdido.”

A situação dos negros em espaços brancos foi abordada na conversa. Marton relembrou a cena em que um jovem negro é seguido por um carro em um bairro pacato dos EUA. “Quando o carro começa a seguí-lo, o que poderia ser uma pessoa pedindo informação, já cria pânico para ele. É uma situação em que ele não se sente bem. Esse deslocamento, que vai pro lado do terror e que apavora, é algo que nos acompanha no dia a dia. Quando Jordan Peele estabelece isso logo de cara, uma ação muito clara para quem está assistindo, é fascinante”, disse.

O roteirista explicou que as primeiras cenas das obras costumam fazer um resumo do que acontecerá em seu decorrer, e o fato pode ser constatado em “Corra!”. “Negro perdido no espaço branco e que vai ser subtraído, como já foi outras vezes. Pode-se fazer um paralelo com a escravidão e outros movimentos que já existiram no mundo.”  

As referências ao período escravocrata estão presentes nos detalhes e foram bem exploradas por Peele, afirmou Eliana. Para a escritora, a escolha das roupas e do cenário, por exemplo, fazem alusão à “casa grande” do período colonial.

“O bingo nada mais é que um leilão de escravizados. A hipnose, em que a mulher vai fundo na psique dele e ele tenta sair, mas aquilo está muito enraizado nele. A lobotomia, em que se faz a referência ao racismo científico e à eugenia. O figurinos em tons pastéis, que dão um tom ameno em contraste radical com a violência psicológica que é aquele drama. A menina branca que se envolve com o rapaz e ele acha que é só amor. São questões profundas”, pontuou Eliana.

Veja o debate na íntegra:
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